sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Quando o cão de trabalho não tem o que fazer

Revista Cães & Cia, n. 326, julho de 2006
Grande parte dos cães atualmente adotados para companhia são, na realidade, cães de trabalho. Rossi explica como lhes proporcionar um ambiente saudável na vida doméstica e evitar, assim, problemas de comportamento
Muitas raças caninas resultam da seleção de características morfológicas e psicológicas para o perfeito desempenho de determinados trabalhos. Conhecer essas características nos ajuda a compreender melhor o cão que temos ou que pretendemos ter e, desse modo, oferecer a ele mais bem-estar e prevenir problemas comportamentais.
Cuidado com generalizaçõesEmbora exista a tendência de cães de uma mesma raça se comportarem de maneira parecida, isso está longe de ser regra. Ao analisar um cão, portanto, é válido levar em conta as características raciais, mas sem nos ater somente a elas. Um Labrador pode ser extremamente agressivo com estranhos, apesar de pertencer a uma raça tipicamente dócil. O oposto pode ocorrer com um Rottweiler, que se espera ser defensivo na presença de desconhecidos.
Amor ao trabalho
Cães de trabalho devem amar o que fazem. Por exemplo, Labradores e Golden Retrievers precisam adorar a água para estarem dispostos a buscar nela um objeto ou um animal no momento desejado pelo condutor.
Para o cão desempenhar tarefas é importante a presença de características como excitabilidade, persistência e apego ao ser humano. Esses mesmos comportamentos, porém, quando manifestados intensivamente dentro de casa, podem enlouquecer a família que não sabe lidar com eles.
Excitabilidade
Grande parte dos trabalhos executados pelos cães passa por um momento inicial de espera, seguido por uma "explosão" de comportamentos. Exemplos: o cão de guarda que espera receber ordem para conter o bandido. O retriever que só deve buscar objeto mediante comando. O Border Collie que, depois de solto, vai pastorear ovelhas até desmaiar de cansaço. São comportamentos comparáveis a um interruptor de tipo liga e desliga, em que um determinado estímulo deixa o cão extremamente excitado, pronto para agir.
Persistência
Quanto mais o cão de trabalho for persistente, melhor. O farejador precisa procurar drogas escondidas num galpão até encontrar. O retriever não deve desistir de ir buscar o pato só porque está longe demais ou se sente um pouco cansado.
Apego ao ser humano
É de extrema valia que o cão de trabalho sinta prazer em estar perto de humanos e fique feliz em ser elogiado por um bom desempenho. Um afago passa a ser necessidade para o cão carente demais.
Perfeito para o trabalho, desesperador para o dono
Vou relatar a queixa de um proprietário que atendi recentemente. "Alexandre, nosso Golden nos deixa maluco! Fica extremamente excitado quando alguém chega. Para ter contato físico, pula na pessoa, morde os braços e as mãos dela e só sossega depois de uns cinco minutos. E, quando quer algo, não desiste por nada. Por exemplo, para poder se molhar, tenta derrubar o pote com água para beber até conseguir! Já procuramos fixar o pote de tudo que é jeito, mas o cão sempre acaba ganhando... Não sabemos mais o que fazer."
Depoimentos como esse são extremamente comuns e mostram como o cão seria ótimo no trabalho. Para ser um bom retriever é preciso excitabilidade, paixão por água, carência, gostar de ter ou de carregar um objeto na boca e persistência.
Como agir
O que fazer com um cão "programado" geneticamente para trabalhar quando não há trabalho para ele? Podemos utilizar duas estratégias. Uma é evitar, a todo custo, que o cão descubra a sua aptidão natural. Pit Bulls, por exemplo, não devem perceber como é gostoso brigar, já que, durante um período, foram selecionados para gostar de atacar outros cães. Labradores precisam ser impedidos de virar a tigela de água para não descobrirem o prazer de deitar-se sobre chão molhado...
Outra estratégia é procurar satisfazer, pelo menos parcialmente, as necessidades do cão de trabalho. Devemos lhe proporcionar o máximo de atividades, atentos às suas necessidades. Se o cão ficar muito excitado quando o dono chegar, por exemplo, pode aprender a correr em volta da mesa da sala até extravasar a ansiedade. Ou, ainda, pode ser estimulado a trazer uma bola na boca para mastigar, em vez de abocanhar roupas, braços e mãos das pessoas que recebe.
A aplicação dessas duas estratégias em conjunto é a melhor solução para compatibilizar as necessidades do cão com a vida entre paredes.

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