Labradoodles e outras novas "raças"
Revista Cães & Cia, n. 325, junho de 2006Alexandre Rossi explica o que são essas "novas raças" e esclarece mitos e verdades relacionados a elas
Na minha última viagem aos Estados Unidos, fiquei impressionado com a quantidade de cães diferentes que passeavam com seus donos e brincavam em parques e praças. Resultantes de cruzamentos entre raças reconhecidas, eram orgulhosamente identificados como Schnoodles (Schnauzer x Poodle), Labradoodles (Labrador x Poodle) e Border Shepherds (Border Collie x Australian Shepherd).
Cruzamentos entre cães de raças diferentes sempre ocorreram, principalmente de modo acidental. Mas, recentemente, promover esses acasalamentos tornou-se atividade normal para alguns criadores, nos Estados Unidos. As misturas ganharam popularidade e muitas vezes são vendidas por preços muito mais altos do que os dos cães de raça pura. Livros sobre o assunto já foram publicados e questões a respeito dessas combinações vêm despertando bastante polêmica entre criadores e amantes dos cães.
Novas raças ou vira-latas caros?
Grande parte das raças existentes surgiram do cruzamento entre cães de raças diferentes, como resultado de um trabalho continuado, por diversas gerações, até ser "fixado" um grupo de características. Só assim se consegue preencher o requisito fundamental que caracteriza as raças: ninhadas semelhantes, umas com as outras, e parecidas com seus pais. Isso não acontece com os descendentes de cães de primeira geração. Eles estão, portanto, mais próximos de vira-latas. Mesmo que sejam caros.
Por que a popularidade nos Estados Unidos?
Apesar de outros fatores também serem importantes, acredita-se que a moda foi a causadora da explosão das "novas" raças nos Estados Unidos. Lá é bacana ter um Labradoodle, por exemplo. E alguns estudos mostram que a moda é o principal fator de aumento da popularidade de uma raça. Além disso, os criadores das misturas caninas anunciam que elas oferecem vantagens como serem hipoalérgicas, terem "vigor híbrido" e características de duas raças num único exemplar.
Cães hipoalérgicos?
Na maior parte das misturas procura-se incluir o Poodle, que ganhou a fama de causar menos alergia nas pessoas do que outras raças caninas. Parece que colabora para isso o fato de ele ter uma só camada de pêlos, já que não tem subpelo, e de não trocar os pêlos com freqüência.
Vigor "híbrido"
É comum e esperado que, em raças mais puras, a variabilidade genética entre indivíduos seja menor do que nas raças menos puras. Mas o afunilamento dos genes pode resultar na manifestação de características indesejadas, como doenças ou síndromes. Se um exemplar campeão ou com particularidades valorizadas for portador de algum gene indesejado, que muitas vezes nem se manifesta nele, poderá espalhá-lo drasticamente, já que esses exemplares costumam ser mais acasalados do que os demais. Os problemas aparecerão depois em seus filhos, netos ou bisnetos. Ainda mais quando houver acasalamento entre eles.
O contrário acontece quando há a mescla de raças diferentes, porque diminuem as chances de algumas doenças aparecerem. É o comumente chamado vigor "híbrido". A primeira geração produzida por pais diferentes possui um maior vigor híbrido, ou seja, um labradoodle filho de um Labrador e de um Poodle possuirá uma maior vigor híbrido do que um cão filho de dois labradoodles. Quanto maior a diferença genética entre as raças misturadas, maior a vantagem. Ou seja, se as raças tiverem parentesco distante, o vigor híbrido será maior do que se elas forem geneticamente muito próximas.
Vira-latas x novas raças
Muitos protetores incondicionais dos vira-latas enxergam nesses cães mestiços de luxo um inimigo em potencial. Questionam por que as pessoas atraídas pela mistura de raças não adotam logo um vira-latas. E apontam a vantagem de os vira-latas serem de graça além de poderem resistir mais a doenças, por causa do vigor híbrido e da seleção natural.
Incentivar adoções e controlar a natalidade canina são iniciativas fundamentais para a redução da quantidade de cães abandonados. Todos queremos que haja cada vez menos cães abandonados para reduzir o sofrimento e os maus-tratos. Tirá-los da rua é, portanto, uma ação maravilhosa, seja qual for a raça ou a cor do cão. Mas, na minha opinião, devemos separar os assuntos e evitar o desperdício de forças em disputas sobre qual tipo de cão as pessoas devem ter -- se de raça, de nova raça ou vira-latas.
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